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Mostrando postagens de maio, 2021

A ÚLTIMA CHAMA QUE VI

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  A descida é íngreme Muito íngreme Talvez eu nunca queria ter estado aqui Um passo após o outro Sob este som me aprofundo... Ao fundo Sentido a fina chuva cair O ladrilho está molhado Sendo lavado de suas histórias Assim como meu rosto Que percebe as lembranças escorrendo por entre as lágrimas das nuvens Das nuvens? Galhos de árvores rangem sobre minha cabeça Pendendo com a força do vento Há algo querendo me encontrar Apoio-me firmemente sobre meus pés Mas não posso mais senti-los Na ladeira abaixo vou sendo privado de sensações Num paradoxo de imergir em mim Afastando-me de meu eu Pra onde vou? Não sei ao certo Está escuro Sem orientação Talvez esteja de joelhos Aguardando o último abraço A derradeira fonte de luz Agora eu sei Você foi a última chama que vi... Egon Pessoa

DERRETIMENTO

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Um vaso fora esquecido No vaso, o viço de uma rosa  rubra Vívida... intensa... quente... Esquecida ali também Uma boneca de porcelana Rasgos em seu vestido de cetim Marcas de seu abandono Ignorada em suas fantasias que não passavam de ilusões distantes Pendida sua cabeça se encontra Triste ao contrastar suas desilusões Amarga ao divisar sua inutilidade Àquela criança que não mais lhe deseja E ao cair nessa obliteração Teve seus sentidos derretidos Desconfigurada de seus desejos Despojada de seus anseios A boneca está sem face Havendo apenas um borrão de tinta Derretida de toda sua relevância A criatura aguarda apenas seu fim Torcendo para que ele seja breve Porque ninguém mais a deseja Não há qualquer traço do querer Em seu derretimento foram também seus sonhos Suas alegrias O cerne se perdeu E junto foram também os sentimentos Restando ao seu redor apenas o horror da negligência Em sua aura agora funesta A lúgubre ressonância de sua ausência de sentido Faz tudo fenecer E numa vã t...

TÚMULO VAZIO

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Estou cercado Um abismo se interpôs ante os desejos Todas essas mentiras marcaram minha pele Não consigo mais sentir o vento Não existem as estrelas da noite A Lua está pálida Eu luto? Mas ergo os braços em vão A silhueta da lembrança que você criou em mim Se apaga porque estou avizinhando algo que nunca esteve ali Estou sendo sugado para o interior da terra De onde não tenho a menor vontade de sair Minhas lágrimas molham o chão seco Mas de nada adianta pois nenhuma vida se manifestará nele Eu estaria melhor morto Do que vivendo essa ausência de expressões O tempo se perdia com seu toque As dores do mundo eram silenciadas com sua fala Mas o engano me usurpou a consciência E não sou mais nada além de um fantasma caminhante por entre árvores de uma floresta silenciosa Palavras vazias Encantos de engodo Estou tão pequeno Que agora sou esmagado nos passos da decepção O fio de uma teia Agora me atravessa como uma onda na praia Minhas mãos não mais encontram um porto seguro Porque ninguém ma...

DESESPERO

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Há um obsceno desejo do toque Há um desespero anseio do troque O que houve com a monotonia da rotina? Foi-nos forçosamente roubada em nome do coletivo? O que vejo é o desejo do toque... sorte O que vejo é o desespero do troque... morte Egon Pessoa