DERRETIMENTO



Um vaso fora esquecido
No vaso, o viço de uma rosa  rubra
Vívida... intensa... quente...

Esquecida ali também
Uma boneca de porcelana
Rasgos em seu vestido de cetim
Marcas de seu abandono
Ignorada em suas fantasias que não passavam de ilusões distantes

Pendida sua cabeça se encontra
Triste ao contrastar suas desilusões
Amarga ao divisar sua inutilidade
Àquela criança que não mais lhe deseja

E ao cair nessa obliteração
Teve seus sentidos derretidos
Desconfigurada de seus desejos
Despojada de seus anseios

A boneca está sem face
Havendo apenas um borrão de tinta

Derretida de toda sua relevância
A criatura aguarda apenas seu fim
Torcendo para que ele seja breve

Porque ninguém mais a deseja

Não há qualquer traço do querer

Em seu derretimento foram também seus sonhos

Suas alegrias

O cerne se perdeu

E junto foram também os sentimentos

Restando ao seu redor apenas o horror da negligência

Em sua aura agora funesta
A lúgubre ressonância de sua ausência de sentido
Faz tudo fenecer

E numa vã tentativa de se reerguer
Absorve a vida ao seu redor
Para então compreender que nada mais lhe resta
A não ser os rasgos acetinados de suas vestes antigas
E as manchas derretidas do que um dia brilhou em sua face agora desmantelada

E a rosa do vaso...
Pobre flor, que então se encontra seca, palidamente enegrecida
Vendo suas pétalas se desfazerem em cinzas
E suas folhas caírem sem vida


Egon Pessoa 

 

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