ASCENSÃO DA RUÍNA



Certa vez caminhando por estes campos

Avistei mil cores em festa

De um povo cuja alma sorriu pra mim


Onde estão aqueles pequeninos que corriam aqui?


Certa vez, caminhando por esta relva

Senti o cheiro doce do amor

Saltando dos gestos e cuidados daqueles que me eram caros


Mas onde estão todos aqueles olhares de conforto?


Tudo está opaco e vazio

Construções puídas pelo tempo

Após tantos anos de descaso e abandono


O que será que foi feito de todo aquele barulho?

Que inundava  os corações de quem quer que passasse pelas redondezas


Alimentou-se o horror e o ódio

E por mais que se gritasse alto para  que cessassem com tamanha insanidade

Todos estavam surdos demais


Inebriados em seus egos inflados e arrogantes

Tomados pela ignorância de uma crença em algo que nunca existiu


Agora não há nem fantasmas em tudo aquilo que restou

Tudo que fora erigido caiu no esquecimento da tolice


Tolice que imperou a ponto de apagar o que havia de humanidade 

Devido a sanha cobiçosa, avarenta, egoísta

E tudo que havia se perdeu


Nessa ascensão da ruína

Deito-me ao lado de um muro de pedras cinzas

Sujas pelos musgos, gastas pelo tempo


Suplicando em vão para que tudo volte a ser como era antes


Mas as preces tornaram-se palavras vazias ao vento

Esquecidas no tempo


Uma criança surge por detrás de uma árvore

Correndo em minha direção


Eis que ela ergue sua frágil mão em minha direção

Esquálida e sem o rubor do pulso da vida


Ela toca meu rosto e fecho meus olhos

Pois quem sabe assim ela pode me levar para junto dos meus


Mas, o que a pequena de Tânatos me mostrou

Foram as consequências cruéis de uma guerra que nunca foi minha

E que passo a fazer parte por nunca ter negligenciado a identidade


A Morte descortinou o pesadelo do horror e da dor

Já que pilho agora os incontáveis cadáveres e ossos

De todos aqueles que alimentaram a voracidade de seus algozes


E largaram-me junto aos abutres neste inferno de lembranças que me assombram

E me perseguem copiosamente

Para que também sofra tudo aquilo que já sofreram antes de mim


Num ininterrupto processo de drenagem do que resta da energia

Para os aviltantes generais da guerra sem fim



Egon Pessoa 

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