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NO MERCADO, UMA ESPERA

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  Fim de tarde chuvosa Fria neblina na copa das árvores Rush ... ronco dos motores Fumaça, fuligem, cansaço Corpos suados Labor executado através dos pensamentos de pavor Que atormentaram todos ao longo do dia Mas diante todo este caótico dia - mais um fim do dia numa grande cidade - Alguém se encontrava sentado No mercado Sozinho Olhava as luzes O ir e vir atarefado dos passantes Preocupados em seus egoísmos da não alteridade E o alguém ali... sentado Alheio a tudo Invisível a todos Sentia os cheiros e odores Imaginava os sabores e os toques De tudo que o mercado tinha a lhe proporcionar Enfim, sorriu Pois encontrou significado no pequeno cotidiano rotineiro dos milhares de passantes Levantou-se e se foi Levou consigo um pouco do mercado Alterado para sempre pela singularidade daquele lugar Por incrível que pareça Este alguém também deixou sua marca no mercado Pois onde sentou Ninguém jamais havia sentado E o mercado sentiu Pelo resto de sua existência A marca do alguém Que o inte...

QUEM SOMOS?

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Tempos estranhos De um futuro incerto Num presente desordenado Estranha sensação De estranhas pessoas Envoltas em estranhas palavras Desconcertantes e tímidos diálogos monossilábicos Estranhamente desejosos do encontro Num lugar estranho Alheio ao mundo Num afã do toque No desejo da carne Através do preenchimento de não se sabe ao certo o quê Há apenas o vazio... estranho Uma desorientação de sentidos, de consciências Mas a estranha vontade de estar ali Um dia com um Outro dia com outro ... e sempre com ninguém ... estranho ... estranho ... estranhamente estranhos Eternamente estranhos Que num futuro breve, não sejamos assim tão estranhos... E  agora, qual nosso próximo salto? Egon Pessoa

A FRIA COMPREENSÃO

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  A distante lembrança daquele gramado Torna-se agora uma lânguida visão ofuscada O som daquela risada que outrora enchera o peito Projeta agora obtusas lágrimas de olhos opacos Nada além do bem e do mal Apenas a iníqua sensação aguda do trespassar Rasgando a carne, o cerne ... o essencial E no abismal espectro do nada A morte Presente na ausência daquele que esteve ali Fria no calor aplacado de quem não mais está Pois essas são as sensações Afloradas pela insensibilidade dos que se ausentam do exercício da alteridade Um reino do pranto e do dissabor Onde memórias são proibidas E sorrisos malquistos O soberano conjura entidades caídas a seu séquito E alimenta-se da amargura dos que se acreditam vivos Pobres almas apagadas da escuta do coro celestial Num autoengano constante da  defesa da vida Enquanto milhares jazem cadavéricos aos seus pés adoecidos Cobiça, ganância, usura O horror é o predicado definidor do animal humano ... e apenas isto... Egon Pessoa

SOB UM CÉU DE ESTRELAS

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  Meus ouvidos eram tocados Pelo zunir de uma leve brisa da primavera O manto da escuridão Acabara de cruzar todo o horizonte do firmamento Mas por detrás daquela colina Havia um intenso brilho acobreado Que delineava uma curiosa silhueta da formação rochosa Um convite que aguçava o desejo de transpô-la Como botões de prata espalhados por todo negrume do céu Incontáveis estrelas iniciavam a dança cósmica do cintilar Piscadelas fortes, mescladas a singelos lampejos tímidos Inundavam minha visão Ao som de vozes ancestrais, que em coro ressoavam cânticos de lembranças coletivas Naquela ressonância que inundava os sentidos Fui banhado pelo afã de subir a silhueta da colina Rumo em direção à luz que se intensificava ao ponto diametral E assim dei início... Um passo após o outro Rumo ao cimo do desvelamento Deixando para trás todos os fantasmas que me acorrentavam às verdades frágeis dos tolos Um passo após o outro Escutando cada vez mais alto as notas do coral do mar de estrelas De onde...

ÁGUA CORRENTE

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  De olhos cerrados Há o descanso nos braços de Morpheus E imagens oníricas tomam conta de mim Os raios dourados de Hélios afastam o escuro ao meu redor Sob a contemplação de relvas e ramagens Deitado ao lado de úmidos seixos O som borbulhante impera Causando um torpor em todo ser que o escuta Dilacerando qualquer tipo de imprecação da alma Os olhos paulatinamente se abrem Ocorrendo o vislumbre da cortina espectral Água e Luz se fundem no esplendor de cores cabalísticas Misteriosas... Herméticas... Esotéricas... A visão se completa com o véu aquoso que brota por entre as pedras E parece cair dos céus Como uma lágrima de gigantes Como uma serpente de nossa temporalidade ancestral Ligando todos num só encantamento E se desfaz numa nuvem caótica Que revolve os mais profundos sentimentos e entendimentos Enterrados no fundo do leito de um rio que se vai ao longe Para muito além de nossa visão Para muito além de nossa imaginação E leva consigo para longe angústias Os olhos se fecham nova...

DIAS DE OUTONO

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Há um sopro singelo Leve, porém completo de sentidos Levando minhas lembranças Agora como  sombras de um passado Não tão distante assim Mas  que se encerrou em marcas sobrenaturais sobre meu espírito Como dias de outono Tudo se turva em tons alaranjados Como o cair das folhas Tudo se manifesta em paletas amareladas Com suaves vislumbres de terra A tristeza que me invadia Como um caudaloso rio de lágrimas Cede neste instante Ante às lembranças das horas que nunca existiram A não ser nos desejos de uma realidade onírica que não mais se manifesta Voa alto então O pensamento que se perfaz no pulsar E sob o Sol frio do fim da  tarde Um céu rosáceo agora a contemplar Egon Pessoa

A ESCADA

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  Tudo é tão insípido ... tão tênue ... frágil... vazio Realidades que se encontram Num repente se perdem em si ... se perdem de si... E se desmancham como poeira no ar As vagas lembranças e desejos Não passam de meras ilusões Palavras proferidas Numa troca de um pensamento Que não pode vir a tona Graças à ausência do respeito Ah... a ausência A constante presença do único sentimento Que visivelmente nutriu-se da diluição dos sentidos Há um caminho Escuro e tortuoso Conduzindo à um portal fino, frio e abobadado Para além dele... uma escada Solitária em sua ascensão à um ambiente hostil Silhueta de uma torre em penumbra Um som triste é ouvido ao longe Levando consigo o calor do coração Restando apenas um músculo petrificado ... em dor ... em horror Com tudo aquilo que jamais fora realmente sentido A não ser a punição da existência Do alto da escada Surge uma figura voluptuosa De formas curvas Dançando serenamente Dançando suavemente Ao som que faz fenecer qualquer esboço de sorriso ...

ASCENSÃO DA RUÍNA

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Certa vez caminhando por estes campos Avistei mil cores em festa De um povo cuja alma sorriu pra mim Onde estão aqueles pequeninos que corriam aqui? Certa vez, caminhando por esta relva Senti o cheiro doce do amor Saltando dos gestos e cuidados daqueles que me eram caros Mas onde estão todos aqueles olhares de conforto? Tudo está opaco e vazio Construções puídas pelo tempo Após tantos anos de descaso e abandono O que será que foi feito de todo aquele barulho? Que inundava  os corações de quem quer que passasse pelas redondezas Alimentou-se o horror e o ódio E por mais que se gritasse alto para  que cessassem com tamanha insanidade Todos estavam surdos demais Inebriados em seus egos inflados e arrogantes Tomados pela ignorância de uma crença em algo que nunca existiu Agora não há nem fantasmas em tudo aquilo que restou Tudo que fora erigido caiu no esquecimento da tolice Tolice que imperou a ponto de apagar o que havia de humanidade  Devido a sanha cobiçosa, avarenta, egoí...

NA MURALHA DA DOR

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  Não sabia distinguir ao certo Entender ao certo   O que era tudo aquilo que estava diante de mim   Ao longe ouvia lamentos, num paradoxo de murmúrios gorgolejantes Com gritos ríspidos que ecoavam por todo aquele ambiente escuro Pavorosamente descortinado em um calor avermelhado Insuportável   E o temor me paralisava Como vim parar aqui?   Paredões gigantes se assomavam a alguns metros de onde eu estava Suas estruturas pareciam me olhar ameaçadoramente de volta Quais formas eram aquelas afinal? Tão retorcidas, tão retesadas Tão aviltadas   O vilipêndio do sofrer nos faz cair na escuridão   Seres sobrenaturais agem furtivamente nas lacunas destes altos muros Serão tais criaturas fruto de meus pensamentos em pesadelo?   Para onde vão todas aquelas tochas Carregadas ao longe por almas sem propósito algum Pois vejo que de uma colina acinzentada se arremessam no abismo do esquecimento   E ao fundo de todo o horror   Soma-se uma rocha   ...

ÓRFÃOS DA NEGLIGÊNCIA

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  A trilha era muito sinuosa Percorrendo em seixos por entre as montanhas escarpadas De pedras lisas e desnudas de qualquer essência de vida Percorrer aquele caminho Traz à tona o espanto e o vazio do silêncio Que como um manto que cobre todo o corpo Ressoa o frio que o ambiente é capaz de causar À medida que a senda avança Cresce o horror À medida que a senda se vai num declive Cai a temperatura Desconcertante desconforto de uma dor interior Que se verbaliza nas paredes verticais da rocha montanhesca E reverbera um eco ensurdecedor Agonia da ausência do autocuidado A trilha passa num repente a um retilíneo dos incautos Pois traz um encanto Um engano dos tolos Abrindo-se num platô de paisagem fantasmagórica Além de uma névoa turva e espessa Gotículas de sombras se desprendem do chão Ascendendo num movimento lento aos céus de carregadas nuvens tempestuosas Numa dança lúgubre que solapa a respiração Lágrimas escorrem pela face do visitante Que se perdeu de qualquer quinhão de vida qu...