ÓRFÃOS DA NEGLIGÊNCIA

 


A trilha era muito sinuosa
Percorrendo em seixos por entre as montanhas escarpadas
De pedras lisas e desnudas de qualquer essência de vida
Percorrer aquele caminho
Traz à tona o espanto e o vazio do silêncio
Que como um manto que cobre todo o corpo
Ressoa o frio que o ambiente é capaz de causar
À medida que a senda avança
Cresce o horror
À medida que a senda se vai num declive
Cai a temperatura
Desconcertante desconforto de uma dor interior
Que se verbaliza nas paredes verticais da rocha montanhesca
E reverbera um eco ensurdecedor
Agonia da ausência do autocuidado
A trilha passa num repente a um retilíneo dos incautos
Pois traz um encanto
Um engano dos tolos
Abrindo-se num platô de paisagem fantasmagórica
Além de uma névoa turva e espessa
Gotículas de sombras se desprendem do chão
Ascendendo num movimento lento aos céus de carregadas nuvens tempestuosas
Numa dança lúgubre que solapa a respiração
Lágrimas escorrem pela face do visitante
Que se perdeu de qualquer quinhão de vida que ainda possuía
Pois ao avistar tamanha tristeza manifesta em essência
Espectrou-se em meio às cinzas de sua visão
Torpe
Corrupta
A queda da  obliteração
À esquerda do platô, um abismo rumo ao infinito do nada
Onde as pedras da beira se soltam no desaparecimento do esquecimento
À direita do platô, um templo gótico
Altivo e gélido
Cujos vitrais contêm alguma língua nefasta
Antiga, em meio às altas torres pontiagudas
Levando ao alto a lamúria dos outros espectros que se postam como sentinelas do vazio negro
que emana do interior do templo
E junto ao lamento daquelas almas
Ascende também rumo à escuridão das nuvens
O suspiro final do Além
O fim dos pobres fantasmas em túnicas de pedra
Há entre o desavisado visitante e a paisagem eviscerada de desejos
Um borrão mais escuro
Uma coluna... uma torre negra
Que causa calafrios a toda vista que toca sua sombra eterna
Aos pés da esguia coluna
Esquálida em sua  essência
Centenas de pequenos pontos que faíscam as últimas centelhas de luz
O fogo da vida que vai se extinguindo diante de todo o frio daquele local sorumbático
São crianças... em prantos, tentando encontrar um porto seguro na escuridão da torre
Contudo, em vão
Pois uma a uma
A fagulha vai se apagando
Tornando-se as sombras que compõem a coluna em sua magnificência iracunda
Crianças... perdidas pois lhes foi usurpado o direito de sorrir
Crianças... atormentadas pois lhes foram arrancadas as vidas de seus pais
Crianças... em choro pois lhes foi ceifado o acolhimento
... a chance do amanhã
Oh cruel sociedade da exclusão
Crianças... cuja chama interior foi apagada em nome da cobiça e do poder
Pairam agora, neste mundo obtuso do lugar algum
Os órfãos da negligência
Encerrados nas trevas da torre de ébano
E o incauto visitante?
Esvaiu-se em lágrimas diante de tal visão
Para enfim emparedar-se como outra sentinela de pedra
Nas paredes minuciosamente entalhadas do templo gótico
Vocalizando de maneira sepulcral o lamento dos horrores de tal visão
Em uníssono à lamuria coletiva do coral de espectros
Alimentados pelo sofrer do vazio acinzentado que emana do interior do templo
Lugar perdido no tempo


Egon Pessoa     

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