SOB UM CÉU DE ESTRELAS
Meus ouvidos eram tocados
Pelo zunir de uma leve brisa da primavera
O manto da escuridão
Acabara de cruzar todo o horizonte do firmamento
Mas por detrás daquela colina
Havia um intenso brilho acobreado
Que delineava uma curiosa silhueta da formação rochosa
Um convite que aguçava o desejo de transpô-la
Como botões de prata espalhados por todo negrume do céu
Incontáveis estrelas iniciavam a dança cósmica do cintilar
Piscadelas fortes, mescladas a singelos lampejos tímidos
Inundavam minha visão
Ao som de vozes ancestrais, que em coro ressoavam cânticos de lembranças coletivas
Naquela ressonância que inundava os sentidos
Fui banhado pelo afã de subir a silhueta da colina
Rumo em direção à luz que se intensificava ao ponto diametral
E assim dei início...
Um passo após o outro
Rumo ao cimo do desvelamento
Deixando para trás todos os fantasmas que me acorrentavam às verdades frágeis dos tolos
Um passo após o outro
Escutando cada vez mais alto as notas do coral do mar de estrelas
De onde jamais deveríamos ter nos esquecido de olhar
Eram sensações múltiplas, diversas
Para muito além de qualquer explicação
As vozes me revelavam que aquela colina não era para ser compreendida
Apenas transposta
Já que a plenitude está na experiência do vivido
E não naquilo do que deveria ter sido
Como um jovem guerreiro
Fui de encontro ao cume da colina
Enfrentando a fera da silhueta em escuridão
Como uma besta a ser vencida na Batalha Final
Um passo após o outro...
Até não olhar para trás
Um passo após o outro...
Para então encontrar, no topo da colina, o Eldorado da Humanidade
Toda sua História, serenamente preservada na copa de uma frondosa Árvore
Árvore da Vida / Árvore da Morte
Cujos galhos, ramos e folhas, cantam passagens dos contos dos homens
Cujos galhos, ramos e folhas, compõem uma elegia dos mitos humanos
Origem, composição, desenvolvimento
...fim?
Sob um céu de estrelas
Aquele firmamento do coral de infinitos brilhos prateados
Encontra-se a Árvore da Sabedoria
Iluminada por uma intensa fonte de luz acobreada
Que se tornou pulsante como o ouro
Num halo que se encheu de luz
Colocando-se agora por detrás da Árvore
Coroa à Rainha
Ela detém em si todos os males do mundo
Ela detém em si todas as dores dos homens
Ela encera em si todas as conquistas humanas
Ela encerra em si todas as alegrias dos sujeitos
Herbácea da espécie Homo
Estúpida tentativa de nominar o Inominável
Em meio às folhagens que vibravam os sons das memórias humanas
Diante da suave brisa daquela primavera
Via-se um bando de pássaros, pousados nos galhos da majestosa Rainha
Como espectros que se alimentam dos desejos dos homens
Equilibrando todo aquele cosmo colossal
Sob um céu de estrelas
... prateadas... no coral de vozes ancestrais
E então, pude perceber
Sentado ao sopé da Árvore
A sombra de alguém
Que tristemente cabisbaixo
Observava o mundo abaixo da colina
Divisando construções de concreto
Envoltas em teias estéreis de informações vazias
Compondo um ambiente caótico, empoeirado... sujo
Lá embaixo, havia uma cidade
Vivendo seu autoflagelo
Afogando-se em sua própria destruição
Consumida pelo seu orgulho tecnocrático
Em meio às luzes vagas e de baixa intensidade
Cujo brilho emana esquálidos esguios sem vida
E o alguém à raiz da Rainha em seu trono
Coroada por ser halo de ouro
Chorava
Chorava muito
Pois viu que nada daquilo fazia sentido
Guerras, Dinheiro, Poder, Religiões...
Nada daquilo fazia sentido
Sob um céu de estrelas
Sob aquela Árvore
Pude então ver, que quem ali chorava...
Era eu
E nunca mais nada foi visto ou sentido
Porque ali era o fim de minha permanência
Sob aquele céu de estrelas
No firmamento de manto escuro
O último suspiro
Para então submergir
No mar do esquecimento
Egon Pessoa
Imagem do amigo Guilherme Sousa
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