NA MURALHA DA DOR
Não
sabia distinguir ao certo
Entender ao certo
O que era tudo aquilo que estava diante de mim
Ao longe ouvia lamentos, num paradoxo de murmúrios gorgolejantes
Com gritos ríspidos que ecoavam por todo aquele ambiente escuro
Pavorosamente descortinado em um calor avermelhado
Insuportável
E o temor me paralisava
Como vim parar aqui?
Paredões gigantes se assomavam a alguns metros de onde eu estava
Suas estruturas pareciam me olhar ameaçadoramente de volta
Quais formas eram aquelas afinal? Tão retorcidas, tão retesadas
Tão aviltadas
O vilipêndio do sofrer nos faz cair na escuridão
Seres sobrenaturais agem furtivamente nas lacunas destes altos muros
Serão tais criaturas fruto de meus pensamentos em pesadelo?
Para onde vão todas aquelas tochas
Carregadas ao longe por almas sem propósito algum
Pois vejo que de uma colina acinzentada se arremessam no abismo do esquecimento
E ao fundo de todo o horror
Soma-se uma rocha
Voluptuosa
Fálica
Úmida pelos desejos mais infames de quem a divisa
Ela ruma em direção à inexistência do céu
E por toda sua nefasta extensão, uma serpente negra se aninha em suas reentrâncias
Sibilando vitupérios que ferem não só os ouvidos, mas também dilacera o coração de quem escuta seus sons vis
E a dor se intensifica, ao olhar para a serpente de olhos vítreos, púrpura, pois púrpura também é seu rancor, manifesto numa essência maligna que se alimenta do medo e do sofrimento de quem ali se encontra
Numa tentativa estúpida de não olhar mais em direção à rocha, nem à serpente
Percebo...
Que a muralha é meu grilhão neste local infame de dilaceração
Pois me tornei agora uma das sombras, esgueirando-me rumo à escuridão
Em fuga da penumbra tremeluzente das tochas carregadas por almas no caminho logo abaixo
Tornei-me um dos seres de trevas que emana ilações à luz do fogo
Através de uma horrenda canção lúgubre
Contorço-me agora por toda a muralha
Com sofrimento, com horror... daquilo que me tornei
E sem saber como sair dali
Sem compreender o estado de ignorância
Isso será a partir de agora para todo sempre
Rastejo-me em lágrimas, sangue e escuridão
Numa muralha em que me arrancaram a esperança
Pois agora sou um espectro de rancor
Vendo a serpente eclodir um ovo
A antítese da vida – o ovo da morte
Pois agora sou um espectro de rancor
Na muralha da dor
Entender ao certo
O que era tudo aquilo que estava diante de mim
Ao longe ouvia lamentos, num paradoxo de murmúrios gorgolejantes
Com gritos ríspidos que ecoavam por todo aquele ambiente escuro
Pavorosamente descortinado em um calor avermelhado
Insuportável
E o temor me paralisava
Como vim parar aqui?
Paredões gigantes se assomavam a alguns metros de onde eu estava
Suas estruturas pareciam me olhar ameaçadoramente de volta
Quais formas eram aquelas afinal? Tão retorcidas, tão retesadas
Tão aviltadas
O vilipêndio do sofrer nos faz cair na escuridão
Seres sobrenaturais agem furtivamente nas lacunas destes altos muros
Serão tais criaturas fruto de meus pensamentos em pesadelo?
Para onde vão todas aquelas tochas
Carregadas ao longe por almas sem propósito algum
Pois vejo que de uma colina acinzentada se arremessam no abismo do esquecimento
E ao fundo de todo o horror
Soma-se uma rocha
Voluptuosa
Fálica
Úmida pelos desejos mais infames de quem a divisa
Ela ruma em direção à inexistência do céu
E por toda sua nefasta extensão, uma serpente negra se aninha em suas reentrâncias
Sibilando vitupérios que ferem não só os ouvidos, mas também dilacera o coração de quem escuta seus sons vis
E a dor se intensifica, ao olhar para a serpente de olhos vítreos, púrpura, pois púrpura também é seu rancor, manifesto numa essência maligna que se alimenta do medo e do sofrimento de quem ali se encontra
Numa tentativa estúpida de não olhar mais em direção à rocha, nem à serpente
Percebo...
Que a muralha é meu grilhão neste local infame de dilaceração
Pois me tornei agora uma das sombras, esgueirando-me rumo à escuridão
Em fuga da penumbra tremeluzente das tochas carregadas por almas no caminho logo abaixo
Tornei-me um dos seres de trevas que emana ilações à luz do fogo
Através de uma horrenda canção lúgubre
Contorço-me agora por toda a muralha
Com sofrimento, com horror... daquilo que me tornei
E sem saber como sair dali
Sem compreender o estado de ignorância
Isso será a partir de agora para todo sempre
Rastejo-me em lágrimas, sangue e escuridão
Numa muralha em que me arrancaram a esperança
Pois agora sou um espectro de rancor
Vendo a serpente eclodir um ovo
A antítese da vida – o ovo da morte
Pois agora sou um espectro de rancor
Na muralha da dor
Egon Pessoa

Imagem Filme 'Blade Runner 2049' - Denis Villeneuve (2017)
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