A FRIA COMPREENSÃO


 


A distante lembrança daquele gramado

Torna-se agora uma lânguida visão ofuscada


O som daquela risada que outrora enchera o peito

Projeta agora obtusas lágrimas de olhos opacos


Nada além do bem e do mal

Apenas a iníqua sensação aguda do trespassar

Rasgando a carne, o cerne

... o essencial


E no abismal espectro do nada

A morte

Presente na ausência daquele que esteve ali

Fria no calor aplacado de quem não mais está


Pois essas são as sensações

Afloradas pela insensibilidade dos que se ausentam do exercício da alteridade


Um reino do pranto e do dissabor

Onde memórias são proibidas


E sorrisos malquistos


O soberano conjura entidades caídas a seu séquito

E alimenta-se da amargura dos que se acreditam vivos


Pobres almas apagadas da escuta do coro celestial


Num autoengano constante da  defesa da vida

Enquanto milhares jazem cadavéricos aos seus pés adoecidos


Cobiça, ganância, usura


O horror é o predicado definidor do animal humano


... e apenas isto...




Egon Pessoa


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