EXCERTO DA LEMBRANÇA
Não havia nada sob meus pés
Sentia-os pairando no vazio de minha própria consciência
Deparei-me com uma estranha sensação
Que fazia meu estômago girar
E os sentidos reconstituíram-se num novo lugar
Já estive aqui antes
Sim, e por diversas vezes
O toque sutil do vento frio em minha face
Trouxe em mim a lembrança dos sentimentos que se externaram por meus olhos
Sinto-me feliz e triste por estar aqui
Calmo e paradoxalmente ansioso
Pois estou diante de minha própria consciência
E de tudo aquilo que fiz de mim
E das marcas que deixei
Bem como dos semblantes que conheci
E isso me prende, enfim... me preenche
Se ressignificando nesta nova e última visita
'E o que vê?', você provavelmente está se perguntando
Mas não há respostas certas para essa questão
Apenas o que há é o entendimento sobre quais são as perguntas corretas a se fazer
Através de toda temporalidade nesta zona nula
Incessantemente a questão... as inquietações
Porque é isso que nos move
O cerne aqui não é o que vejo
Mas o que me compele a estar aqui
O que sinto...
Sinto o céu carregado sobre minha cabeça
E isso me conforta
Sinto o ar enregelar meu interior
E isso me conforta
Sinto uma túnica alva esvoaçar ao meu redor
Envolvendo-me e retirando-me de mim mesmo
E sob meus pés agora, vejo grandes rochas acinzentadas e brancas
Com fissuras e formas diversas
Cujos seixos compõem os obstáculos de tudo que tive que atravessar
E isso me conforta
Levando-me a repousar as mãos numa pequena árvore
Que miraculosamente cresceu forte suas raízes por entre as frestas daquelas rochas
E isso me conforta
Pois o farfalhar de suas folhas revelam-me segredos até então obtusos à minha razão
Só pude compreendê-los com as sensações que a lembrança despertou em mim
E ao longe... bem longe
No alto de um morro solitário
Divisei a figura de alguém
... pálida... em vestes escuras...
Fitando-me como se soubesse quem eu sou há muito tempo
Cujo olhar atravessa a correspondência da matéria e a efemeridade do espírito
Levando consigo todo e qualquer sopro de vida
E ao lado deste ser
Erigido sob o céu revolto
Uma casa de grossas e escuras paredes
Com janelas enormes e luzes amarelas que crepitam em seu interior
Atraindo incessantemente minha atenção
Um aceno... foi toda interação que a figura teve comigo
Partindo enfim rumo à casa
E isso me conforta
Voltei o olhar para baixo
E senti a sepultura absorver toda minha essência
Para nunca mais voltar
Levando para todo sempre o excerto da lembrança
Porque tudo aquilo que amei
E todos aqueles que amei
Estão agora ao meu lado
Deitados no descanso dos justos
Aguardando-me para me abraçar
Fechei os olhos
E fui
Transcendendo qualquer possibilidade de sentimentos exprimidos
... e isso me conforta...
Egon Pessoa

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