GUARDIÃS DA MEMÓRIA
Havia debaixo daquela frondosa árvore, um velho assentado
Ele passava horas e horas do dia sob a sombra projetada pela grandiosa copa verdejante
Daquela que poderia ser considerada a imperatriz de toda a floresta
O velho homem meditava, refletia, suspirava embaixo daquela árvore
Enfim, vivia e se nutria com o toque daqueles galhos e folhas
Até que em um dia, um garoto passou. Parou curioso, em atenta observação ao velho e à árvore
Pensativo por um tempo ficou, até que tomou coragem e foi ter com o velho uma palavra
- Ei, o senhor é o dono desta árvore?
Ao que o velho respondeu:
- O que você acha, pequenino?
- Parece-me que o senhor é o dono desta árvore. Ela é tão velha quanto o senhor, não é mesmo?
- Então quer dizer que me toma como senhor da árvore por ela parecer ser tão velha quanto eu?
- Sim. - retrucou o garotinho. - Ela parece ser sua desde que você e ela eram novinhos.
E o velho disse:
- Pois bem, e você? O que possui, em tão tenra idade? Considera algo aqui como seu?
- Não, jamais. Gosto de vir aqui para correr e brincar. Sinto a liberdade.
- E isso não lhe faz dono de nada aqui?
- Não. Eu apenas corro e brinco. E me sinto feliz assim.
- Pois bem - interpelou o velho - há muito anos, quem corria e brincava por aqui era eu. E me sentia feliz assim, pois eu gozava da liberdade desse modo.
- Então tudo se esvaziou para o senhor? O senhor ficou velho e não é mais livre e feliz, não é?! Pois agora só fica assentado debaixo de sua árvore velha. Bonita, mas velha. - Concluiu o menino.
- Garoto, sinto agora a liberdade e a felicidade de uma outra maneira, pois nada é eterno nessa experiência pela qual nos conhecemos. Estar debaixo dessa árvore todos os dias é a forma como me vejo livre. É a forma como me sinto feliz. Porque projeto meus passos e minhas brincadeiras através de meus pensamentos. E isso me dá superpoderes. E eu rio bastante com isso. Vê ali aquela pequena muda que cresce próxima da pedra? Ela deve ser um pouco mais velha que você. Você assenhora-se dela? Não. Mas compreenda: o sentido da vida reside naquilo que produz em nós satisfação. Não se esqueça disso!
E o garoto ficou maravilhado com as palavras de sabedoria do velho. Todos os dias então, após suas corridas e brincadeiras pela floresta, o menino ia em busca do senhor da grandiosa árvore para ouvir suas histórias. E tornaram-se grande amigos.
Contudo, como disse o velho, nada é para sempre, e a partir de um determinado dia o garoto nunca mais viu o velho ao sopé da árvore. Lembrou-se que o velho usava um cordão no pescoço, e lhe disse que um dia tal cordão seria seu. Foi quando então, em meio às raízes da frondosa árvore, o garoto encontrou o cordão de couro no chão. Pegou o objeto e pranteou seu velho amigo, compreendendo o que havia acontecido. Em meio aos soluços, envolveu seu pescoço no cordão, enxugou as lágrimas e lembrou-se do velho com carinho. E passou a sorrir, numa homenagem singela e pura à memória de seu amigo senil.
E o garoto nunca mais foi o mesmo. Pois cresceu. E com ele, cresceu também a pequena mudinha próxima à pedra. E o tempo passou. Incontáveis anos, pois os homens dessa época não se atinham tanto assim à contagem dos ciclos do Sol. E o garoto se tornou um homem. E o homem se tornou um senhor. Que todos os dias assentava debaixo da agora frondosa árvore ao lado da pedra. E refletia... pensava... suspirava. E se imaginava com superpoderes.
Inclusive, com o poder de se projetar pequenino, mantendo um diálogo intenso com seu pequeno eu.
Foi quando então, o velho compreendeu a peça que seu velho amigo pregou nele mesmo. Que todo o tempo, estamos nos ensinando mutuamente, como perpetuação de nossos desejos e anseios. Que todo o tempo, o diálogo com o outro é na verdade o diálogo consigo mesmo, com quem verdadeiramente somos. E o novo velho se foi, deixando para o pequenino de suas projeções o cordão de couro. E deixando também o trajeto para uma nova muda pequenina. E um novo ciclo se iniciava.
E todo esse conjunto de frondosas árvores? Guardiãs ancestrais de memórias que não podem ser perdidas, caso contrário, deixamos de ser aquilo que verdadeiramente somos. Individualidades de um coletivo construído a muitas mãos, ao longo de nossa temporalidade. Honremos nossos cordões de couro... Respeitemos nossas árvores...
Egon Pessoa

Parabéns pela bela reflexão!
ResponderExcluirMuito obrigado Mira! Bora pensar junto?! ;)
ExcluirQue lindo e filosófico texto Egon! Nos faz pensar! Nos leva a refletir sobre este momento e essa cultura de afastamento do real e endeusamento do virtual. Claro que a comunicação virtual tem nos “salvado” enquanto estamos proibidos de interagir pessoalmente. Mas não é tudo. Somos seres pertencentes a natureza. Ou melhor somos natureza e cada dia está sendo arrancado de nós essa realidade. Vai em frente com este blog. É uma ajuda para a humanização das pessoas 👏👏👏
ResponderExcluirObrigado pelas palavras Regina. Sigamos juntos nessa jornada
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