UM ESPECTRO RETORCIDO

    
Encontrava-me cansado e doente
Após todos os longos anos das lutas que travei

Não sei se as venci
Pois delas agora existem apenas parcos lampejos em minha memória

Tudo está opaco
Tomado por um intenso odor acre de Thanatos

Estou deitado e mal posso abrir os olhos
Sinto-me sozinho

Mas o que há ali?
Um alguém vindo com um estranho objeto reluzente

Dourado, de cor tão vívida que chega a me cegar

Uma máscara
A máscara da ilusão onírica
Que ao ser posta no rosto de alguém
Traz a ela as alegrias de um sonho distante

E colocaram-na em mim
Num repente...

Tive assombro, tive medo
Pois o dourado cintilante desapareceu de minha visão

Assim como todo o resto do mundo
Causando-me um horror lancinante

Em meio ao caos daquela escuridão
Comecei a escutar um som de trombetas guturais... longínquas

Batidas compassadas de tambores ribombavam em minha mente
Paulatinamente fui hipnotizado por tal música

Assustadora, entretanto estranhamente entorpecendo-me num conforto singular

E me vi no alto de um monte
Com a relva baixa e úmida
Devido a fina garoa que lavava o lugar

Vozes umbrais preenchiam todo o ambiente
E uma cortina de névoa branca
Neblinava tudo que estava além

Diante de mim, um pouco abaixo do nível do morro
Contorcia-se uma árvore seca
Cujos galhos assemelhavam-se a pequenos vasos capilares de pulmões

E então vi... e então escutei...
O som proveniente da árvore
Era o som de sua respiração

E seus galhos dançavam ao vento, expandindo-se num vai e vem
Como o processo que garante a oxigenação da vida

Apesar de seca, a planta não estava morta
Pois o espírito que a habitava... olhava atentamente para mim

E o respirar da árvore, concatenou-se ao som dos tambores e das trombetas

Me vi descendo o morro
Com passos compassados à toda aquela sinfonia
Com o próprio peito em ritmo e em concentração

Olhei para o meu corpo e me vi envolto em luz
Vermelho, verde, púrpura... uma miríade que enchia os olhos

Porque então compreendi, que aquela árvore habitava o meu interior
E que toda a sua estrutura era uma metáfora de meus próprios pulmões

Aquela respiração era nada mais nada menos do que meu próprio ser
Encontrando a dança da música sagrada que existe em mim

A névoa se intensificou e começou a chover forte
E todo aquele sonho trouxe paz e alegria

Ao espírito cansado e adoecido que estava deitado agora há pouco

'Quem será que trouxe aquela máscara?' - pensei

Entrando enfim no tronco da árvore, encerrando-me naquela vasta eternidade
De regozijo e plenitude, em meio à árvore espectral da ilusão


Egon Pessoa

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