RASGO


Evisceração

O corpo se profana em dor

O invólucro do ser se dilui agora num ente deformado

E por todas as frestas se esvai aquilo que existe de melhor

A consciência, os sentidos, o pulso da alma

Liquefeito, tingido de tons rubros

Metamorfose do ser, cuja luz ofusca os vazios

Criaturas vis que não passam de conchas inabitadas

Incompreensíveis em seus próprios medos
Castradores de vida, ceifadores contumazes
Que tenazmente cumprem sua sina de automutilação
E seus algozes são lacaios das próprias privações apetitivas de almas atormentadas

E assim rasgo...
Pois é rasgando a carne que a energia se catalisa ao exterior

E assim rasgo...
Pois é na laceração da corporeidade que o eu se verbaliza e se faz uníssono com a vida!

Rasguemos todos, assim, aquilo que nos agrilhoa

E sinta, apenas sinta, a brisa do mar


Egon Pessoa

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