A PEDRA
Qual lastro você tem?
Onde o suor que escorre se oblitera no vazio do outro
Qual significado possui?
Onde aquele que lhe toca sorve todo sentido que a ele é ofertado
Sem que a dor que lhe acomete jamais finde diante do que lhe fora apresentado
As águas de um caudaloso rio moldam as rochas
Mas não arrancam o peso desértico do que o mundo lhe traz
Fica o cansaço
Fica o medo
Se esvai a esperança
Tornando as cores da paisagem
Numa fantasmagórica fumaça espessa
Que turva os arredores e traz a constante aflição da descrença
E toda estrada fria leva para longe aquilo que do ser pulsou um dia com vivacidade
Ergue-se um cálice ao luar
Cujo líquido derramado banha as feridas abertas que sangram sob os constantes açoites de almas inquietas em vão
Para nada
Por nada
Sem troca
Sem fim...
O chão é o único porto seguro
O pranto, a inócua tentativa de sobrepujar o tormento
Ao cair então, eis que uma pequenina pedra surge no olhar
E ao fitá-la
A essência de um elemental da rocha materializa-se
Gigantesco diante de todo aquele abismo da existência
Do sepulcro dos caminhos, as pegadas firmes da criatura dão ritmo ao aquebrantado
Do mausoléu das trilhas perdidas, a pequena pedra traz a solidez necessária
Pois dali adiante, tal fragmento lítico configura-se como o início de um erigir vindouro
Nos escuros e vastos caminhos, levanta-se agora o espectro de um homem
Portando a pedra que se faz rocha
Com a rocha que se predica civilizatória
Levando do torpor
O alguém que compreendeu o que é esperançar
Egon Pessoa

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