A ÚLTIMA CHAMA QUE VI
A descida é íngreme
Muito íngreme
Talvez eu nunca queria ter estado aqui
Um passo após o outro
Sob este som me aprofundo...
Ao fundo
Sentido a fina chuva cair
O ladrilho está molhado
Sendo lavado de suas histórias
Assim como meu rosto
Que percebe as lembranças escorrendo por entre as lágrimas das nuvens
Das nuvens?
Galhos de árvores rangem sobre minha cabeça
Pendendo com a força do vento
Há algo querendo me encontrar
Apoio-me firmemente sobre meus pés
Mas não posso mais senti-los
Na ladeira abaixo vou sendo privado de sensações
Num paradoxo de imergir em mim
Afastando-me de meu eu
Pra onde vou?
Não sei ao certo
Está escuro
Sem orientação
Talvez esteja de joelhos
Aguardando o último abraço
A derradeira fonte de luz
Agora eu sei
Você foi a última chama que vi...
Egon Pessoa

Imagem em https://www.jornalciencia.com/conheca-cachoeira-que-esconde-uma-chama-que-nunca-se-apaga/
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