A ESCADA


 

Tudo é tão insípido

... tão tênue

... frágil... vazio


Realidades que se encontram

Num repente se perdem em si

... se perdem de si...


E se desmancham como poeira no ar


As vagas lembranças e desejos

Não passam de meras ilusões

Palavras proferidas

Numa troca de um pensamento

Que não pode vir a tona

Graças à ausência do respeito


Ah... a ausência


A constante presença do único sentimento

Que visivelmente nutriu-se da diluição dos sentidos


Há um caminho

Escuro e tortuoso

Conduzindo à um portal fino, frio e abobadado


Para além dele... uma escada

Solitária em sua ascensão à um ambiente hostil


Silhueta de uma torre em penumbra


Um som triste é ouvido ao longe

Levando consigo o calor do coração


Restando apenas um músculo petrificado

... em dor

... em horror


Com tudo aquilo que jamais fora realmente sentido

A não ser a punição da existência


Do alto da escada

Surge uma figura voluptuosa

De formas curvas

Dançando serenamente

Dançando suavemente


Ao som que faz fenecer qualquer esboço de sorriso


Seus longos cabelos negros

Agitados e ondulantes

... eriçados ao ar


E na escuridão do negrume de seus fios

Rostos de centenas... milhares de pobres almas

São parcamente iluminados

Por uma pira de chamas rubras

Que ladeia a sombra

Em seu balé de movimentos hipnóticos


Um ritual que derruba a todos

Para não mais levantar


Pobres almas

Contorcidas em sofrimento

Cujos semblantes vazios

Vislumbram o avizinhar de novos entes


Das realidades que evaporaram

E que dentro em breve serão esquecidas

Pela doce ilusão trajada de um manto de solidez


... que jamais existiu...



Egon Pessoa

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  1. Imagem em https://pixabay.com/pt/illustrations/torre-escala-escadas-noite-5507324/

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