NO MERCADO, UMA ESPERA

 


Fim de tarde chuvosa
Fria neblina na copa das árvores
Rush... ronco dos motores
Fumaça, fuligem, cansaço
Corpos suados
Labor executado através dos pensamentos de pavor
Que atormentaram todos ao longo do dia
Mas diante todo este caótico dia
- mais um fim do dia numa grande cidade -
Alguém se encontrava sentado
No mercado
Sozinho
Olhava as luzes
O ir e vir atarefado dos passantes
Preocupados em seus egoísmos da não alteridade
E o alguém ali... sentado
Alheio a tudo
Invisível a todos
Sentia os cheiros e odores
Imaginava os sabores e os toques
De tudo que o mercado tinha a lhe proporcionar
Enfim, sorriu
Pois encontrou significado no pequeno cotidiano rotineiro dos milhares de passantes
Levantou-se e se foi
Levou consigo um pouco do mercado
Alterado para sempre pela singularidade daquele lugar
Por incrível que pareça
Este alguém também deixou sua marca no mercado
Pois onde sentou
Ninguém jamais havia sentado
E o mercado sentiu
Pelo resto de sua existência
A marca do alguém
Que o interpretou de modo distinto
Único
Numa intensa relação de troca
Alguém no mercado
O mercado no alguém
Tudo porque havia uma espera
Que jamais se extinguiu
E dessa espera
Brotou uma inusitada partilha de lembranças
Que ecoam nos passantes incautos e desavisados
Mas que vez ou outra
Estão abertos à vibração daquilo que a realidade ecoa de volta

Egon Pessoa

Comentários

  1. Fotografia de Victor Chiang em https://mymodernmet.com/victor-chiang-neon-shanghai/

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

ASCENSÃO DA RUÍNA

QUEM SOMOS?